05.03.2007
Comecei bem a minha segunda semana. Levantei-me sensivelmente cedo, e fui até á praia, estive lá toda a manhã. Deitado na toalha, debaixo de uma árvore que não sei o nome. Alternando com uns mergulhos no mar, estava muito calor. O resto do dia estive em casa, a ver TV (não á meio da a piscina estar pronta! É que temos uma piscina na casa da cidade).
Foi um começo de semana calmo.
Nesse dia aguardava-mos a chegada do nosso Director, que veio cá para uma visita de uma semana e resolver uns assuntos pendentes.
Início da semana de trabalho, estive no escritório a traduzir documentação de segurança para espanhol, com a ajuda do Venceslau. Que me corrigia alguma gramática.
Lá fora nas ruas da cidade, o trânsito estava um pouco caótico. Aqui, é cada qual por si. Existe uma certa ordem, mas pouca. Os taxistas aqui são 300 mil vezes piores que os de Lisboa, mas á vontade! Se for preciso até fazem inversão de marcha dentro de uma rotunda. Por tanto imaginem lá a caos que eles causam no trânsito.
Nesse dia á noite, recebemos uma notícia desagradável.
O Paulo Senna, um brasileiro com quem já tinha trabalhado numa obra no Algarve, um rapaz humilde, trabalhador, muito bom profissional. Inclusive, foi ele que me deu uma cadela de raça Perdigueira, que tinha sido abandonada junto a essa mesma obra no Algarve.
Mas o telefonema do Paulo trazia notícias más. O seu irmão que se encontra no Brasil, tinha falecido. O Paulo estava de rastos!
Então o Eng.º João e o Eng.º Melo, tomaram as devidas previdências para que o Paulo fosse para o Brasil o mais rápido possível. Telefonema para cá, telefonema para lá! E passadas umas horinhas, estava resolvido. O Paulo já tinha reservas até o Rio de Janeiro. Não cheguei a estar com ele, mas quem o viu, disse que ele estava desconsolado de todo. E com motivo para isso!
No outro dia fomos, a Evinayong. Fomos mostrar a obra ao Eng.º Melo, e pela primeira vez andei no meio da selva a pé. Com um nativo de catana em punho a abrir caminho.
Lá fomos nós. Estava com um pouco de receio de me deparar com alguma cobra.
É que de manhã quando chegamos, vimos uma morta junto á estrada. Tinha sido um encarregado nosso que a matou com uma catana. Era grande, negra, venenosa. Daquelas que metem medo.
Mas foi um dia tranquilo.
Mas com o chegar da noite, começava a ficar um pouco tenso. No dia seguinte teria de voltar a Evinayong, sozinho! O que me estava a deixar um pouco nervoso, e com um certo receio. Devido as barreiras policiais existentes no caminho, e pelo facto de ir pela primeira vez a Evinayong sozinho.
E para piorar a situação, a meio da manhã na cidade de Bata. Fui mandado parar por um polícia, que invocava que tinha passado o sinal vermelho do semáforo (sim aqui á semáforos). Então a conversa dele, era que eu tinha passado o vermelho, e que me ia multar em 150 mil cefas (+ ou – 230euros). E eu disse-lhe que não, que não tinha passado o sinal vermelho, mas sim o verde. Mas ele continuava a insistir na mesma conversa, e que não valia a pena discutir. Eu tinha passado o vermelho e mais nada! E essa ideia já ninguém removia da cabeça do policia. Percebi logo que o que ele queria era dinheiro. Então ele vira – se para mim e diz: Podemos ser amigos, dás-me algum para ir beber uma ‘Fanta’. E ficamos amigos! Senão sou obrigado a multar-te e a tirar-te a carta de condução!
Mas não cedi ás pressões, como andava com uma cópia a cores da carta de condução. Não estava muito preocupado, é que nunca ando com os documentos originais. Ando sempre com cópias a cores. É que eles não sabem, se são falsos ou verdadeiros.
Então eu disse-lhe: Pode ficar com a carta, e pode passar a multa.
Mas ele insistia com a história de sermos amigos, e de lhe dar algum!
Mas tanto se fartou, que acabou por me mandar embora. Estive lá parado cerca de meia hora!
Eles chegam ao ponto de nos quererem multar, porque temos o veículo sujo.
A situação mais caricata que se passou com a polícia, foi passada com um dos nossos encarregados.
Ele ia a caminho de Bata, e ao avistar uma barreira policial, começou a reduzir a velocidade até parar na dita barreira! Foi então que veio de lá um polícia e disse-lhe:
- Vou ter de o multar.
- Porquê!? – Disse o encarregado
- Porque você deveria parar a 80 metros da barreira. – Disse o polícia
Enc. - Mas onde é que isso está aí a avisar, onde é que está a sinalética de aviso!?
Policia – Está ali, junto á berma da estrada.
Foi então que o encarregado, já furioso, sai da carrinha para ir ver o dito sinal. E qual o seu espanto, quando vê que o sinal que lá se encontra, é um sinal de redução de velocidade de 80 km/hora.
Enc. – Mas aquilo é um sinal de redução de velocidade! – Exclamou o encarregado furioso de todo.
Policia – Não, não! È um sinal para os veículos pararem a 80 metros da barreira!
O encarregado, só não se atirou para o chão a rir, para não arranjar mais problemas. Senão, ele diz que o tinha feito.
Isto é mais uma forma que eles inventam para nos sacarem dinheiro.
Não tem lógica nenhuma, parar o veículo a 80 metros da barreira, sair do mesmo, andar 80 metros dizer ao polícia para abrir, para pudermos passar (muitas das vezes eles nem lá estão, estão no bar a beber cerveja. Sim, eles só colocam barreiras policiais em locais onde exista pelo menos um bar!), e voltar para o veículo. Isto é de loucos!!!
14h00m, começa a minha viagem sozinho até Evinayong. Uma viagem que até correu bem, sem problema algum. Estava com um pouco de receio, que nas barreiras policiais me chateassem. Mas pelo contrário, apenas me perguntavam para onde ia e o que ia fazer. Mas a viagem é linda, é só selva por todo o lado. É natureza pura, é muito idêntica a selva amazónica
Já em Evinayong, dirigi-me ao Hotel onde iria ficar e onde já estavam alojados alguns dos portugueses. É um hotel pequeno e de poucos recursos.
Dirigi-me a recepção, onde se encontrava uma senhora que já me aguardava. Porque, já alguém tinha feito a minha reserva. Feita a inscrição, dirigi-me ao quarto. Era o nº 12, um quarto pequeno em que a cama ocupava quase todo o espaço existente. Parecia uma cela, nem um armário para colocar a roupa tinha. Eu no momento só pensava: ‘Em que buraco me vim eu enfiar!
Hora de jantar, dirigi-me á nossa cantina. Que se situa no centro da vila, e onde os restantes portugueses tomam as suas refeições. Conversei com alguns dos meus companheiros e estivemos por ali um pouco a conviver.
No dia seguinte, levantei-me cedo. Era o primeiro dia de trabalho na obra.
Uma obra com uma extensão de 82 quilómetros sempre dentro da selva.
Fiz o reconhecimento dos primeiros 30 quilómetros, visto que os restantes ainda estão por desmatar. A obra consiste na reabilitação de uma estrada já existente e na constru – ção de 8 pequenas pontes. O que vai melhorar o acesso ao país vizinho, o Gabão.
Mas nestes dias que lá estive, concentrei-me nos trabalhos de montagem do nosso estaleiro e futuro local onde iremos viver.
As casas onde vamos ficar alojados são muito boas, são casas de madeira, relativamente espaçosas e todas equipadas com electrodomésticos. Se já estivessem com água e luz, mudava-me já para lá! E não sou o único com essa opinião, é que as condições onde estamos alojados não são as melhores. Mas os trabalhos estão a correr bem, e em principio para meados de Março. Mudamo-nos para lá.
Sexta-feira, final de semana. Decidimos voltar a Bata, ainda nesse dia. Viajámos durante a noite. Uma viagem de três horas, pelo meio da selva. Onde o único guia que tínhamos era a luz dos faróis da Pick Up. Onde a rede telefónica é nula, e o risco de acidente é elevado.
Não torno a faze-la durante a noite, é demasiado arriscado.
20.03.07
Já passou um mês desde que aqui cheguei, passei por coisas que nunca imaginava passar e vi outras tantas coisas como nunca imaginei ver.
Como por exemplo, milhares de borboletas a voarem sobre o nosso estaleiro. O céu estava repleto de cores, é uma coisa incrível!
Apesar de algumas dificuldades iniciais, tenho – me adaptado bem ao País. O que me custa mais é mesmo, as saudades que tenho de Portugal. E são muitas!
È que aqui durante a noite pouco se faz, estou sempre atentar arranjar algo para passar o tempo. Ler um livro, tentar apanhar a RDP internacional na rádio para ouvir algum programa, ver um filme de DVD. E por vezes dou por mim a pensar, na família, na namorada, nos amigos, naquilo que estariam a fazer! Mas o tempo há-de passar!
Num destes dias, entrei novamente para dentro da selva, com o Sr. Carvalho (Encarregado da Pedreira), com o Eng.º Cortijo, e três nativos. Íamos ver um possível local para extrair pedra. Então lá fomos nós, desta vez também levava uma catana!
Ao fim de 30 minutos, tinha-mos chegado ao local que nos tinham falado e que um dos nativos já conhecia ou pelo menos era o que ele dizia! Tudo porque no caminho de regresso, consegui-mos perder-nos! Mas só repara-mos nisso, quando nos apercebemos que já tínhamos passado 2 vezes no mesmo local. Andávamos as voltas, já nem o nativo sabia onde estava. No meio de selva densa, e vegetação por todo o lado. Não conseguíamos avistar nenhum ponto de referência. Fui então que decidi-mos tomar outra direcção, e para piorar a situação, começou a chover torrencialmente. O Engenheiro já resmungava com tudo.
Andamos por ali cerca de duas horas, a subir e a descer montes, com um clima abafado e estávamos todos encharcados. Eu trazia cerca de 3kilos de lama agarrado em cada pé.
Até que encontramos uma pequena aldeia, que se situa a beira da estrada. Tínhamos – no afastado cerca de 10 quilómetros, do local onde deixamos os veículos e por onde tínhamos começado. Foi uma ‘estafa’!
Já estamos a viver no estaleiro, as condições são muito melhores. Temos sempre luz e água. O conforto também já é outro, acho que temos as melhores casas, de toda a Guiné. Até o Delegado do Governo, aqui da província Evinayong, já as cobiçou. Está aqui, está a pedir uma!!!
Eles pedem tudo, mas nunca nos facilitam nada. Se pedimos algo a eles, temos de dar sempre algum em troca! Impressionante!
15.05.07
Têm sido umas semanas atribuladas, estás últimas!
No passado fim-de-semana em alguns dos Portugueses foi detectado sintoma de Paludismo. E infelizmente esses casos vieram mesmo a confirmar-se, mas nenhum caso grave. Sentiam-se cansados e tinham alguma febre. Mas tudo coisas que se resolvem. Bem pior foi outro português, que lhe foi diagnosticado Hepatite. E como não se conseguem fazer exames mais detalhados aqui na Guiné, para saber que tipo de Hepatite é que ele apanhou, vai voltar para Portugal. Até lá, encontra-se de quarentena para prevenir.
Têm-se registado também uma série de acidentes rodoviários com viaturas da empresa, felizmente só com danos materiais. Mas acidente aparatoso foi este, que podem ver na foto. Que aconteceu na estrada de Evinayong – Bata.
Também esta semana, recebi uma triste notícia de Portugal. O meu avô Jaime faleceu, fiquei arrasado. Até o tempo estava mau, choveu durante todo dia. Já estava mentalizado que mais dia, menos dia iria acontecer. Ele já estava de cama á alguns meses, e cada vez se sentia mais fraco. Mas sempre tive a esperança de o tornar a ver, quando regressa-se no final do mês de Maio.