quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Aventuras em Africa III

05.03.2007

Comecei bem a minha segunda semana. Levantei-me sensivelmente cedo, e fui até á praia, estive lá toda a manhã. Deitado na toalha, debaixo de uma árvore que não sei o nome. Alternando com uns mergulhos no mar, estava muito calor. O resto do dia estive em casa, a ver TV (não á meio da a piscina estar pronta! É que temos uma piscina na casa da cidade).
Foi um começo de semana calmo.
Nesse dia aguardava-mos a chegada do nosso Director, que veio cá para uma visita de uma semana e resolver uns assuntos pendentes.
Início da semana de trabalho, estive no escritório a traduzir documentação de segurança para espanhol, com a ajuda do Venceslau. Que me corrigia alguma gramática.
Lá fora nas ruas da cidade, o trânsito estava um pouco caótico. Aqui, é cada qual por si. Existe uma certa ordem, mas pouca. Os taxistas aqui são 300 mil vezes piores que os de Lisboa, mas á vontade! Se for preciso até fazem inversão de marcha dentro de uma rotunda. Por tanto imaginem lá a caos que eles causam no trânsito.
Nesse dia á noite, recebemos uma notícia desagradável.
O Paulo Senna, um brasileiro com quem já tinha trabalhado numa obra no Algarve, um rapaz humilde, trabalhador, muito bom profissional. Inclusive, foi ele que me deu uma cadela de raça Perdigueira, que tinha sido abandonada junto a essa mesma obra no Algarve. 
Mas o telefonema do Paulo trazia notícias más. O seu irmão que se encontra no Brasil, tinha falecido. O Paulo estava de rastos!
Então o Eng.º João e o Eng.º Melo, tomaram as devidas previdências para que o Paulo fosse para o Brasil o mais rápido possível. Telefonema para cá, telefonema para lá! E passadas umas horinhas, estava resolvido. O Paulo já tinha reservas até o Rio de Janeiro. Não cheguei a estar com ele, mas quem o viu, disse que ele estava desconsolado de todo. E com motivo para isso!
No outro dia fomos, a Evinayong. Fomos mostrar a obra ao Eng.º Melo, e pela primeira vez andei no meio da selva a pé. Com um nativo de catana em punho a abrir caminho.
Lá fomos nós. Estava com um pouco de receio de me deparar com alguma cobra.

É que de manhã quando chegamos, vimos uma morta junto á estrada. Tinha sido um encarregado nosso que a matou com uma catana. Era grande, negra, venenosa. Daquelas que metem medo.
Mas foi um dia tranquilo.                                                                                                    
Mas com o chegar da noite, começava a ficar um pouco tenso. No dia seguinte teria de voltar a Evinayong, sozinho! O que me estava a deixar um pouco nervoso, e com um certo receio. Devido as barreiras policiais existentes no caminho, e pelo facto de ir pela primeira vez a Evinayong sozinho.
E para piorar a situação, a meio da manhã na cidade de Bata. Fui mandado parar por um polícia, que invocava que tinha passado o sinal vermelho do semáforo (sim aqui á semáforos). Então a conversa dele, era que eu tinha passado o vermelho, e que me ia multar em 150 mil cefas (+ ou – 230euros). E eu disse-lhe que não, que não tinha passado o sinal vermelho, mas sim o verde. Mas ele continuava a insistir na mesma conversa, e que não valia a pena discutir. Eu tinha passado o vermelho e mais nada! E essa ideia já ninguém removia da cabeça do policia. Percebi logo que o que ele queria era dinheiro. Então ele vira – se para mim e diz: Podemos ser amigos, dás-me algum para ir beber uma ‘Fanta’. E ficamos amigos! Senão sou obrigado a multar-te e a tirar-te a carta de condução!
Mas não cedi ás pressões, como andava com uma cópia a cores da carta de condução. Não estava muito preocupado, é que nunca ando com os documentos originais. Ando sempre com cópias a cores. É que eles não sabem, se são falsos ou verdadeiros.
Então eu disse-lhe: Pode ficar com a carta, e pode passar a multa.
Mas ele insistia com a história de sermos amigos, e de lhe dar algum!
Mas tanto se fartou, que acabou por me mandar embora. Estive lá parado cerca de meia hora!
Eles chegam ao ponto de nos quererem multar, porque temos o veículo sujo.
A situação mais caricata que se passou com a polícia, foi passada com um dos nossos encarregados.
Ele ia a caminho de Bata, e ao avistar uma barreira policial, começou a reduzir a velocidade até parar na dita barreira! Foi então que veio de lá um polícia e disse-lhe:    
 - Vou ter de o multar.
 - Porquê!? – Disse o encarregado
 - Porque você deveria parar a 80 metros da barreira. – Disse o polícia
Enc. - Mas onde é que isso está aí a avisar, onde é que está a sinalética de aviso!?
Policia – Está ali, junto á berma da estrada.
Foi então que o encarregado, já furioso, sai da carrinha para ir ver o dito sinal. E qual o seu espanto, quando vê que o sinal que lá se encontra, é um sinal de redução de velocidade de 80 km/hora.
Enc. – Mas aquilo é um sinal de redução de velocidade! – Exclamou o encarregado furioso de todo.
Policia – Não, não! È um sinal para os veículos pararem a 80 metros da barreira!
O encarregado, só não se atirou para o chão a rir, para não arranjar mais problemas. Senão, ele diz que o tinha feito.
Isto é mais uma forma que eles inventam para nos sacarem dinheiro.
Não tem lógica nenhuma, parar o veículo a 80 metros da barreira, sair do mesmo, andar 80 metros dizer ao polícia para abrir, para pudermos passar (muitas das vezes eles nem lá estão, estão no bar a beber cerveja. Sim, eles só colocam barreiras policiais em locais onde exista pelo menos um bar!), e voltar para o veículo. Isto é de loucos!!!
14h00m, começa a minha viagem sozinho até Evinayong. Uma viagem que até correu bem, sem problema algum. Estava com um pouco de receio, que nas barreiras policiais me chateassem. Mas pelo contrário, apenas me perguntavam para onde ia e o que ia fazer. Mas a viagem é linda, é só selva por todo o lado. É natureza pura, é muito idêntica a selva amazónica
Já em Evinayong, dirigi-me ao Hotel onde iria ficar e onde já estavam alojados alguns dos portugueses. É um hotel pequeno e de poucos recursos.
Dirigi-me a recepção, onde se encontrava uma senhora que já me aguardava. Porque, já alguém tinha feito a minha reserva. Feita a inscrição, dirigi-me ao quarto. Era o nº 12, um quarto pequeno em que a cama ocupava quase todo o espaço existente. Parecia uma cela, nem um armário para colocar a roupa tinha. Eu no momento só pensava: ‘Em que buraco me vim eu enfiar!
Hora de jantar, dirigi-me á nossa cantina. Que se situa no centro da vila, e onde os restantes portugueses tomam as suas refeições. Conversei com alguns dos meus companheiros e estivemos por ali um pouco a conviver.


No dia seguinte, levantei-me cedo. Era o primeiro dia de trabalho na obra.
Uma obra com uma extensão de 82 quilómetros sempre dentro da selva.
Fiz o reconhecimento dos primeiros 30 quilómetros, visto que os restantes ainda estão por desmatar. A obra consiste na reabilitação de uma estrada já existente e na constru – ção de 8 pequenas pontes. O que vai melhorar o acesso ao país vizinho, o Gabão. 
Mas nestes dias que lá estive, concentrei-me nos trabalhos de montagem do nosso estaleiro e futuro local onde iremos viver.
As casas onde vamos ficar alojados são muito boas, são casas de madeira, relativamente espaçosas e todas equipadas com electrodomésticos. Se já estivessem com água e luz, mudava-me já para lá! E não sou o único com essa opinião, é que as condições onde estamos alojados não são as melhores. Mas os trabalhos estão a correr bem, e em principio para meados de Março. Mudamo-nos para lá.
 Sexta-feira, final de semana. Decidimos voltar a Bata, ainda nesse dia. Viajámos durante a noite. Uma viagem de três horas, pelo meio da selva. Onde o único guia que tínhamos era a luz dos faróis da Pick Up. Onde a rede telefónica é nula, e o risco de acidente é elevado.
Não torno a faze-la durante a noite, é demasiado arriscado.           

20.03.07
Já passou um mês desde que aqui cheguei, passei por coisas que nunca imaginava passar e vi outras tantas coisas como nunca imaginei ver.
Como por exemplo, milhares de borboletas a voarem sobre o nosso estaleiro. O céu estava repleto de cores, é uma coisa incrível!
Apesar de algumas dificuldades iniciais, tenho – me adaptado bem ao País. O que me custa mais é mesmo, as saudades que tenho de Portugal. E são muitas!
È que aqui durante a noite pouco se faz, estou sempre atentar arranjar algo para passar o tempo. Ler um livro, tentar apanhar a RDP internacional na rádio para ouvir algum programa, ver um filme de DVD. E por vezes dou por mim a pensar, na família, na namorada, nos amigos, naquilo que estariam a fazer! Mas o tempo há-de passar!
 Num destes dias, entrei novamente para dentro da selva, com o Sr. Carvalho (Encarregado da Pedreira), com o Eng.º Cortijo, e três nativos. Íamos ver um possível local para extrair pedra. Então lá fomos nós, desta vez também levava uma catana!
Ao fim de 30 minutos, tinha-mos chegado ao local que nos tinham falado e que um dos nativos já conhecia ou pelo menos era o que ele dizia! Tudo porque no caminho de regresso, consegui-mos perder-nos! Mas só repara-mos nisso, quando nos apercebemos que já tínhamos passado 2 vezes no mesmo local. Andávamos as voltas, já nem o nativo sabia onde estava. No meio de selva densa, e vegetação por todo o lado. Não conseguíamos avistar nenhum ponto de referência. Fui então que decidi-mos tomar outra direcção, e para piorar a situação, começou a chover torrencialmente. O Engenheiro já resmungava com tudo.
Andamos por ali cerca de duas horas, a subir e a descer montes, com um clima abafado e estávamos todos encharcados. Eu trazia cerca de 3kilos de lama agarrado em cada pé.
Até que encontramos uma pequena aldeia, que se situa a beira da estrada. Tínhamos – no afastado cerca de 10 quilómetros, do local onde deixamos os veículos e por onde tínhamos começado. Foi uma ‘estafa’! 

Já estamos a viver no estaleiro, as condições são muito melhores. Temos sempre luz e água. O conforto também já é outro, acho que temos as melhores casas, de toda a Guiné. Até o Delegado do Governo, aqui da província Evinayong, já as cobiçou. Está aqui, está a pedir uma!!!
Eles pedem tudo, mas nunca nos facilitam nada. Se pedimos algo a eles, temos de dar sempre algum em troca! Impressionante!


15.05.07
Têm sido umas semanas atribuladas, estás últimas!
No passado fim-de-semana em alguns dos Portugueses foi detectado sintoma de Paludismo. E infelizmente esses casos vieram mesmo a confirmar-se, mas nenhum caso grave. Sentiam-se cansados e tinham alguma febre. Mas tudo coisas que se resolvem. Bem pior foi outro português, que lhe foi diagnosticado Hepatite. E como não se conseguem fazer exames mais detalhados aqui na Guiné, para saber que tipo de Hepatite é que ele apanhou, vai voltar para Portugal. Até lá, encontra-se de quarentena para prevenir.
Têm-se registado também uma série de acidentes rodoviários com viaturas da empresa, felizmente só com danos materiais. Mas acidente aparatoso foi este, que podem ver na foto. Que aconteceu na estrada de Evinayong – Bata.
Também esta semana, recebi uma triste notícia de Portugal. O meu avô Jaime faleceu, fiquei arrasado. Até o tempo estava mau, choveu durante todo dia. Já estava mentalizado que mais dia, menos dia iria acontecer. Ele já estava de cama á alguns meses, e cada vez se sentia mais fraco. Mas sempre tive a esperança de o tornar a ver, quando regressa-se no final do mês de Maio.

Aventuras em Africa II

                                       Diário da Guiné Equatorial (excertos)


26.02.07

Passou uma semana, desde que aqui cheguei. E os relatos já são muitos.
Um mundo totalmente diferente, ao que estamos habituados.
O espanhol é a língua mais fluente, depois existem alguns dialectos locais.
É um país onde está instaurada uma democracia ‘musculada’, onde a corrupção é frequente. E é um país que não tem turismo, dizem que é por uma questão de salvaguarda nacional. Ok, eles é que sabem!
Por todo o lado existem barreiras policiais. Os polícias são os piores nesse aspecto, qualquer pretexto serve para sacar dinheiro ao ‘branco’.
Os Guineenses podem andar com o carro a transbordar de pessoas, podem pisar traços contínuos, podem fazer ‘trinta por uma linha’.Que nunca são mandados parar!
Mas o ‘branco’ se vier calmamente na sua viatura. É mandado parar de imediato, só para tentarem sacar algum dinheiro.
Mas nem tudo é mau! A cidade de Bata  é uma cidade com boas condições. Pela experiência que já tinha tido em S.Tomé e Príncipe, aqui as condições são melhores.
Existe energia eléctrica e água todos os dias, ao contrário de S.Tomé que durante dois ou três dias por semana faltava a electricidade.
É uma cidade com alguns recursos, Tem supermercados, hotéis, bares, restaurantes (onde existem pratos europeus, ex: Bitoque), e existe o Café Central!
Estes estabelecimentos, são maioritariamente geridos por Libaneses, que se encontram cá em grande número.
Pelo que tenho visitado, as praias são boas, de águas mornas e muito apetecíveis.
Mas vou-vos contar, o que se passou no passado sábado, dia 24.02.07.
   Eram 05.30h da manhã, eu, o Eng.º João, o Carlos (administrativo da obra) e o Venceslau (Um guineense que trabalha connosco, e que é o nosso elo de ligação com as autoridades locais. È um homem robusto, com ar descontraído, de fácil amizade e bastante divertido. Sem ele, de certeza que ficavam muitos coisas por resolver.).
Saímos de casa, com destino a Evinayong, local onde se situa o início da obra. Esperava-nos pela frente, uma viagem de cerca de duas horas e meia. Numa estrada em que os primeiros 66 quilómetros são de asfalto, e os restantes 114Km em terra batida, com bastantes curvas e buracos.
Prosseguimos a viagem o mais rápido possível, só abrandava-mos quando nos deparávamos com as barreiras policiais. E até ao nosso destino existem 5.
 E quanto mais andávamos, mais entravamos para dentro de uma selva densa. Onde as paisagens são incríveis e de difícil descrição, onde tudo é tão puro e natural! Que só visto a olho nu.
Ao avançar-mos, passávamos por pequenas povoações, onde se avistavam pessoas a vender fruta á beira da estrada, outras somente a ver-nos passar e as crianças a correr ao lado do carro a acenar os braços.
Mas objectivo da nossa ida a Evinayong, não era só ir ver, como os trabalhos da obra estavam a decorrer. Mas também, ir a cerimónia de lançamento da primeira ‘Pedra’, do Troço de obra que vamos executar.
E onde iriam estar presentes quase todos os membros do governo, administração local, membros da igreja e inclusive o PR e sua esposa.


Ao chegar a Evinayong, dirigimo-nos á casa onde estou os nossos comparsas Portugueses e de seguida fomos ao local onde está a ser montado o estaleiro social da obra e onde vou passar os meus próximos tempos.
 Fica situado no meio da Selva, a meio caminho do Troço de estrada que estamos a construir.
Ao chegar, reencontrei amigos, com quem tinha trabalhado em Portugal.
O que é sempre bom, ter pessoas conhecidas num sitio tão longe de casa.
Depois de uma visita rápida ao estaleiro, onde visitamos as futuras instalações. Dirigimo-nos ao que viemos.
 Novamente de volta a Evinayong, fomos surpreendidos, quando nos disseram que teríamos de estar presentes na cerimónia de recepção ao PR.
Ao chegarmos ao local, deparamo-nos com uma multidão efusiva.Com muitos grupos de dança e cantares africanos, e também algumas tribos da zona. Estava um ambiente animado, com o som das congas, batuques, xilofones gigantes, a dar sonoridade a todo aquele ambiente. Coisas que estamos habituados a ver na tv. E que eu estava a ter o prazer de ver ao vivo e a cores.




Estava um calor abrasador, eu pingava em suor.
Depois de cerca de uma hora á espera, começaram a chegar os primeiros elementos da comitiva do PR. Fui então que nos começaram a dividir. População para um lado da avenida, e os representantes de empresas estrangeiras, membros parlamentares, do governo, representantes regionais e outras entidades públicas, no outro lado da avenida.
A certa altura, peguei no meu telemóvel para ver as horas. E vindo do nada, apareceu um individuo das forças militares, que me disse para desligar o telemóvel. Senão retirava-me o telemóvel, era proibido usar o telemóvel enquanto o PR não passar por nós.
De repente, fez-se silêncio! A banda militar, começou a entoar o hino nacional guineense. O PR tinha acabo de chegar ao início da avenida, e ia começar desfilar pela aquela enorme avenida a fora. Fui então que fui novamente abordado por um guineense, que me alertou para que tira-se os óculos de sol. Porque o PR iria cumprimentar-nos e gosta de olhar as pessoas nos olhos, e passados poucos segundos. Lá estava ele, seguido da sua esposa, rodeados de seguranças todos armados dos pés á cabeça, junto a mim e aos outros portugueses. Cumprimentaram-nos, esboçaram um sorriso e seguiram o seu desfile pela avenida. Mas fiquei confuso, quatro dos seus seguranças são de raça branca.
Foi então que me disseram que eram Israelitas (antigos elementos da Moshad, policia secreta isrealita), mercenários de guerra.
Logo de seguida, atrás deles seguia uma frota de carros de guerra todos armadilhados, que mais parecia aquelas antigas paradas militares na ex-União Soviética.
Depois dirigimo-nos á praça do município, onde teríamos de assistir a uma série de discursos, entre eles ao do nosso director de obra, o Eng.º João. Que ao princípio do discurso se sentiu um pouco nervoso, visto que estava a discursar perante meio milhar de pessoas. Mas correu bem, e até teve direito a um efusivo aplauso.
No fim de ele discursar, saímos do local, para irmos preparar a cerimónia de inauguração da nossa obra, onde o PR também iria estar presente. Mas sem antes passarmos pela nossa cantina, que temos na vila. Para comer-mos uma bela feijoada, preparada pelo nosso cozinheiro.  
Findada a refeição, fomos para o local da inauguração.
Concluídos os preparativos para a inauguração, ficamos a aguardar a chegado do PR e toda a sua comitiva.
Passado sensivelmente meia hora, lá chegaram eles. Foi então que o Eng.João me pediu, para filmar a cerimónia, porque o chefe de protocolo tinha dado autorização para tal. E então lá comecei a filmar, mas nem um minuto filmei ! Um dos seguranças pessoais do PR (um desses israelitas mercenários) munido de uma metralhadora pequena ao ombro, abordou-me e disse-me para parar de filmar, ou então retirava-me a máquina. E eu disse-lhe que tinha autorização do chefe de protocolo, mas nem assim. Fui obrigado, a desligar a máquina. As minhas pernas tremiam que nem varas verdes.
 Mas pronto, correu tudo bem. Os gajos da TV Guineense bem me avisaram, mas eu estava convencido que com a autorização do chefe do protocolo, o podia fazer. Mas afinal, o gajo não manda nada.
Terminada a sessão solene, fomos embora. Para aproveitar-mos a boleia da comitiva do PR, até Bata. E assim não teríamos de parar nas barreiras policiais.
Bom, e assim se passou um dia bastante agitado.
Tentei relatar as coisas o mais pormenorizado e breve possível. Mas isto só assistindo mesmo.

Vou tentar todas as semanas, fazer um relato da semana que passou. Mas agora vai tornar-se mais difícil de enviar. Visto que me vou mudar para Evinayong, e lá não temos net.

Queria fazer um blog, mas aconselharam-me a não fazer. Porque alguém próximo do governo da Guiné pode ler e não gostar daquilo que escrevi. E isso poderá trazer-me problemas.

Aventuras em Africa

“Uma noite para nunca mais esquecer…”


24.11.07


Sábado á noite,
Para variar um pouco, mais uma noite de calor.
Eu e um amigo (que também se chama Nelson) com quem trabalho, saímos á noite por volta das 23h.
Á procura de diversão aqui na Floresta. Que por mais estranho que pareça, ela existe! Em todas as aldeias, existem pequenos bares, que passam a mais variada música. Através de umas aparelhagens todas traficadas, com umas ligações manhosa (fios descarnados, vale tudo!!!). Algumas delas ligadas a colunas de automóveis, de onde sai um som estridente e cheio de distorção. Até chegamos a confundir as músicas, com o som do gerador que fornece a energia eléctrica e que trabalha nas traseiras do bar!

Ao fazermo-nos á estrada, tinhamos percorrido cerca de 14km, desde o local onde vivemos.  E começa-mos a ouvir uns batuques vindos do interior da floresta. Paramos a PickUp, foi buscar a lanterna que tinha no porta-luvas e seguimos um trilho que nos levava ao encontro do som dos batuques. Quanto mais andávamos melhor se definia o som. Já se ouvia cantares a acompanhar as batucadas.  Avistamos luz, uma fogueira enorme no meio do bosque, cerca de dez pessoas junto a ela. Mas o som vinha de dentro de uma casa"palhota", mesmo ali ao lado.
Chegamos junto a eles sem ser notados, mas por poucos segundos. Foi então que fomos reconhecidos por um dos nativos (que trabalha para nós, na obra), que nos veio cumprimentar e apresentou-nos aos restantes elementos. Tive que me rir, enquanto ele nos apresentava aos outros! - Ele dizia: “Este é Nelson Grande, e este é Nelson Pequeno!”. Eu sou o pequeno, é que o outro Nelson é ligeiramente mais alto que eu!
Foi então, que nos convidaram a entrar dentro da casa"palhota"!
Estavam a realizar um ritual espirituoso (a chamada bruxaria), e iam deixar-nos assistir!
Fiquei um pouco nervoso, e acho que o Nelson também ficou, mas não disse nada!
A casa estava cheia de gente! O som dos batuques e das vozes dos nativos a cantar, estavam em harmonia. Estava um fumo, que não se conseguia ver bem a quantidade de pessoas, que estava presente. Algumas estavam com pinturas na cara e penachos na cabeça. Umas dançavam, outras cantavam e batiam palmas, andavam num círculo estonteante. No meio da sala, lá estavam também em círculo 6 elementos tocando Congas e um Xilofone enorme (feito de um tronco de uma arvore), incrível! Mas o fumo que pairava no ar, não era um fumo qualquer. Não faço a mínima ideia o que se estava ali a queimar, mas depressa comecei a ficar de sorriso feito, e de "cigarro" na mão. O Nelson, não quis fumar, diz que não se dá bem com os "fumos"! Mas ainda bem, que não fumou. Senão, não me iria recordar de tudo.
Quando dei por mim, já estava com uma daquelas mocas, que me dá para ameaçar as pessoas com garfos, já estava doido de todo.
Até já dançava com eles, cantava sei lá o quê (emitia uns sons!), tocava nos batuques. Uma coisa é certa, ainda hoje me dói as mãos de tanto tocar.

O que sei é que nunca me tinha divertido tanto aqui na Guiné Equatorial , como me diverti naquela noite.
A parte final da noite já não me recordo bem, mas sei que cheguei a casa de dia, e com a cara toda pintada, com barro"lama", e uma tinta qualquer que eles extraem de umas folhas.
Mas o ambiente que ali vivi, é difícil de descrever. Aquela sonoridade perfeita, quase que entras em transe. Eu acho que entrei!
Mas temos de saber respeitar estes ambientes, os nativos levam estes rituais muito a sério. O Nelson, pediu para tirar umas fotos. Mas eles não permitiram! Podíamos ali estar, participar, mas fotos é que não!


Meus amigos, muito bom. Gostei muito, estou pronto a repetir!!!

Inicio do ciclo

Começou hoje, não sei quando termina. Se calhar amanhã!
Vamos aguardar para ver!