quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Aventuras em Africa II

                                       Diário da Guiné Equatorial (excertos)


26.02.07

Passou uma semana, desde que aqui cheguei. E os relatos já são muitos.
Um mundo totalmente diferente, ao que estamos habituados.
O espanhol é a língua mais fluente, depois existem alguns dialectos locais.
É um país onde está instaurada uma democracia ‘musculada’, onde a corrupção é frequente. E é um país que não tem turismo, dizem que é por uma questão de salvaguarda nacional. Ok, eles é que sabem!
Por todo o lado existem barreiras policiais. Os polícias são os piores nesse aspecto, qualquer pretexto serve para sacar dinheiro ao ‘branco’.
Os Guineenses podem andar com o carro a transbordar de pessoas, podem pisar traços contínuos, podem fazer ‘trinta por uma linha’.Que nunca são mandados parar!
Mas o ‘branco’ se vier calmamente na sua viatura. É mandado parar de imediato, só para tentarem sacar algum dinheiro.
Mas nem tudo é mau! A cidade de Bata  é uma cidade com boas condições. Pela experiência que já tinha tido em S.Tomé e Príncipe, aqui as condições são melhores.
Existe energia eléctrica e água todos os dias, ao contrário de S.Tomé que durante dois ou três dias por semana faltava a electricidade.
É uma cidade com alguns recursos, Tem supermercados, hotéis, bares, restaurantes (onde existem pratos europeus, ex: Bitoque), e existe o Café Central!
Estes estabelecimentos, são maioritariamente geridos por Libaneses, que se encontram cá em grande número.
Pelo que tenho visitado, as praias são boas, de águas mornas e muito apetecíveis.
Mas vou-vos contar, o que se passou no passado sábado, dia 24.02.07.
   Eram 05.30h da manhã, eu, o Eng.º João, o Carlos (administrativo da obra) e o Venceslau (Um guineense que trabalha connosco, e que é o nosso elo de ligação com as autoridades locais. È um homem robusto, com ar descontraído, de fácil amizade e bastante divertido. Sem ele, de certeza que ficavam muitos coisas por resolver.).
Saímos de casa, com destino a Evinayong, local onde se situa o início da obra. Esperava-nos pela frente, uma viagem de cerca de duas horas e meia. Numa estrada em que os primeiros 66 quilómetros são de asfalto, e os restantes 114Km em terra batida, com bastantes curvas e buracos.
Prosseguimos a viagem o mais rápido possível, só abrandava-mos quando nos deparávamos com as barreiras policiais. E até ao nosso destino existem 5.
 E quanto mais andávamos, mais entravamos para dentro de uma selva densa. Onde as paisagens são incríveis e de difícil descrição, onde tudo é tão puro e natural! Que só visto a olho nu.
Ao avançar-mos, passávamos por pequenas povoações, onde se avistavam pessoas a vender fruta á beira da estrada, outras somente a ver-nos passar e as crianças a correr ao lado do carro a acenar os braços.
Mas objectivo da nossa ida a Evinayong, não era só ir ver, como os trabalhos da obra estavam a decorrer. Mas também, ir a cerimónia de lançamento da primeira ‘Pedra’, do Troço de obra que vamos executar.
E onde iriam estar presentes quase todos os membros do governo, administração local, membros da igreja e inclusive o PR e sua esposa.


Ao chegar a Evinayong, dirigimo-nos á casa onde estou os nossos comparsas Portugueses e de seguida fomos ao local onde está a ser montado o estaleiro social da obra e onde vou passar os meus próximos tempos.
 Fica situado no meio da Selva, a meio caminho do Troço de estrada que estamos a construir.
Ao chegar, reencontrei amigos, com quem tinha trabalhado em Portugal.
O que é sempre bom, ter pessoas conhecidas num sitio tão longe de casa.
Depois de uma visita rápida ao estaleiro, onde visitamos as futuras instalações. Dirigimo-nos ao que viemos.
 Novamente de volta a Evinayong, fomos surpreendidos, quando nos disseram que teríamos de estar presentes na cerimónia de recepção ao PR.
Ao chegarmos ao local, deparamo-nos com uma multidão efusiva.Com muitos grupos de dança e cantares africanos, e também algumas tribos da zona. Estava um ambiente animado, com o som das congas, batuques, xilofones gigantes, a dar sonoridade a todo aquele ambiente. Coisas que estamos habituados a ver na tv. E que eu estava a ter o prazer de ver ao vivo e a cores.




Estava um calor abrasador, eu pingava em suor.
Depois de cerca de uma hora á espera, começaram a chegar os primeiros elementos da comitiva do PR. Fui então que nos começaram a dividir. População para um lado da avenida, e os representantes de empresas estrangeiras, membros parlamentares, do governo, representantes regionais e outras entidades públicas, no outro lado da avenida.
A certa altura, peguei no meu telemóvel para ver as horas. E vindo do nada, apareceu um individuo das forças militares, que me disse para desligar o telemóvel. Senão retirava-me o telemóvel, era proibido usar o telemóvel enquanto o PR não passar por nós.
De repente, fez-se silêncio! A banda militar, começou a entoar o hino nacional guineense. O PR tinha acabo de chegar ao início da avenida, e ia começar desfilar pela aquela enorme avenida a fora. Fui então que fui novamente abordado por um guineense, que me alertou para que tira-se os óculos de sol. Porque o PR iria cumprimentar-nos e gosta de olhar as pessoas nos olhos, e passados poucos segundos. Lá estava ele, seguido da sua esposa, rodeados de seguranças todos armados dos pés á cabeça, junto a mim e aos outros portugueses. Cumprimentaram-nos, esboçaram um sorriso e seguiram o seu desfile pela avenida. Mas fiquei confuso, quatro dos seus seguranças são de raça branca.
Foi então que me disseram que eram Israelitas (antigos elementos da Moshad, policia secreta isrealita), mercenários de guerra.
Logo de seguida, atrás deles seguia uma frota de carros de guerra todos armadilhados, que mais parecia aquelas antigas paradas militares na ex-União Soviética.
Depois dirigimo-nos á praça do município, onde teríamos de assistir a uma série de discursos, entre eles ao do nosso director de obra, o Eng.º João. Que ao princípio do discurso se sentiu um pouco nervoso, visto que estava a discursar perante meio milhar de pessoas. Mas correu bem, e até teve direito a um efusivo aplauso.
No fim de ele discursar, saímos do local, para irmos preparar a cerimónia de inauguração da nossa obra, onde o PR também iria estar presente. Mas sem antes passarmos pela nossa cantina, que temos na vila. Para comer-mos uma bela feijoada, preparada pelo nosso cozinheiro.  
Findada a refeição, fomos para o local da inauguração.
Concluídos os preparativos para a inauguração, ficamos a aguardar a chegado do PR e toda a sua comitiva.
Passado sensivelmente meia hora, lá chegaram eles. Foi então que o Eng.João me pediu, para filmar a cerimónia, porque o chefe de protocolo tinha dado autorização para tal. E então lá comecei a filmar, mas nem um minuto filmei ! Um dos seguranças pessoais do PR (um desses israelitas mercenários) munido de uma metralhadora pequena ao ombro, abordou-me e disse-me para parar de filmar, ou então retirava-me a máquina. E eu disse-lhe que tinha autorização do chefe de protocolo, mas nem assim. Fui obrigado, a desligar a máquina. As minhas pernas tremiam que nem varas verdes.
 Mas pronto, correu tudo bem. Os gajos da TV Guineense bem me avisaram, mas eu estava convencido que com a autorização do chefe do protocolo, o podia fazer. Mas afinal, o gajo não manda nada.
Terminada a sessão solene, fomos embora. Para aproveitar-mos a boleia da comitiva do PR, até Bata. E assim não teríamos de parar nas barreiras policiais.
Bom, e assim se passou um dia bastante agitado.
Tentei relatar as coisas o mais pormenorizado e breve possível. Mas isto só assistindo mesmo.

Vou tentar todas as semanas, fazer um relato da semana que passou. Mas agora vai tornar-se mais difícil de enviar. Visto que me vou mudar para Evinayong, e lá não temos net.

Queria fazer um blog, mas aconselharam-me a não fazer. Porque alguém próximo do governo da Guiné pode ler e não gostar daquilo que escrevi. E isso poderá trazer-me problemas.

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